A interoperabilidade está deixando de ser apenas uma agenda tecnológica para se tornar uma condição de qualidade, segurança e sustentabilidade da assistência. Em um país continental, marcado pela coexistência de sistemas públicos e privados, diferentes níveis de atenção e desigualdades regionais, o cuidado frequentemente é interrompido pela incapacidade de os sistemas “conversarem” entre si. O paciente repete sua história, refaz exames, carrega documentos em papel e nem sempre encontra seu histórico clínico disponível justamente quando a informação é mais necessária.
Interoperar vai além de simplesmente conectar softwares. Significa permitir que dados corretos, compreensíveis e seguros circulem entre instituições autorizadas, preservando o contexto clínico e apoiando decisões assistenciais, administrativas e de saúde pública. O objetivo é permitir que a trajetória do cidadão possa ser acompanhada pelo sistema de saúde, independentemente de onde ele tenha sido atendido.
O Brasil avançou na digitalização de registros, na expansão de prontuários eletrônicos e na criação de soluções e iniciativas de alcance nacional. Entretanto, ainda convivem hospitais com diferentes níveis de maturidade digital, sistemas legados, bases isoladas, cadastros inconsistentes e processos dependentes de documentos impressos. A realidade é especialmente complexa porque o sistema brasileiro reúne União, estados, municípios, prestadores privados, operadoras, laboratórios, centros diagnósticos e profissionais autônomos.
Essa fragmentação produz consequências concretas: atrasos na tomada de decisão, risco de eventos adversos, duplicidade de procedimentos, dificuldade de transição entre alta hospitalar e atenção primária, desperdício de recursos e baixa qualidade dos dados para planejamento. Também amplia a desigualdade: instituições mais estruturadas conseguem integrar informações e produzir inteligência, enquanto unidades menores podem permanecer excluídas por falta de recursos, conectividade ou capacidade técnica.
Interoperabilidade, porém, não se confunde com centralização indiscriminada. Dados de saúde são sensíveis, e seu compartilhamento exige finalidades legítimas, controle de acesso, rastreabilidade, minimização de dados, segurança cibernética e respeito à Lei Geral de Proteção de Dados.
A Rede Nacional de Dados em Saúde
A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) já se apresenta como um dos avanços mais relevantes da transformação digital do SUS. Em julho de 2026, a plataforma já reunia mais de 4,7 bilhões de registros clínicos e administrativos e contava com a adesão das 27 unidades da Federação ao processo de federalização, além de integrar informações dos setores público e privado.
O crescimento reflete o esforço do Ministério da Saúde para transformar iniciativas antes fragmentadas em uma infraestrutura de alcance nacional. A formalização da RNDS por decreto, em 2025, reforçou seu papel como plataforma de interoperabilidade do ecossistema de dados do SUS, orientada por princípios como segurança da informação, privacidade, padronização, transparência e centralidade no cidadão.
A própria escala alcançada torna ainda mais importante o debate sobre a evolução dessa arquitetura. Uma infraestrutura nacional comum não pressupõe que todos os dados de saúde sejam reunidos de maneira indiferenciada em uma única base, nem que sua custódia e governança precisem estar concentradas em uma só instância. Um arranjo que combine coordenação nacional com responsabilidades distribuídas e preserve, na origem, controles e custódia primária tende a oferecer maior segurança, clareza de papéis e autonomia aos diferentes participantes.
Sob essa perspectiva, a evolução da RNDS pode combinar a infraestrutura nacional já construída com uma governança distribuída, ampliando a conexão entre bases, sistemas e serviços. Com isso, as informações podem ser localizadas e compartilhadas de forma segura, rastreável e adequada à finalidade de uso. Os dados podem, assim, apoiar o atendimento, a vigilância, o planejamento e a gestão, ao mesmo tempo que ampliam o acesso do cidadão às próprias informações por meio do Meu SUS Digital.
A continuidade desse movimento pode fortalecer a RNDS como política de Estado, sustentada por estabilidade institucional, financiamento previsível, transparência de resultados e diálogo permanente com estados, municípios, prestadores públicos e privados, profissionais e cidadãos. Especificações técnicas claras, critérios de conformidade, prazos realistas e apoio às redes menos estruturadas ajudam a completar essa agenda.
A interoperabilidade na prática
Para os prestadores de saúde, a interoperabilidade envolve uma transformação institucional mais ampla do que a simples aquisição de uma nova ferramenta. Essa trajetória pode ser observada em algumas frentes:
- Governança de dados. Uma estrutura consistente pressupõe responsabilidades claras entre tecnologia, assistência, qualidade, jurídico, segurança da informação e proteção de dados, com participação efetiva da alta liderança.
- Jornada da informação. Conhecer onde os dados são produzidos, transformados, armazenados e compartilhados ajuda a definir prioridades. Admissão, alta, resultados laboratoriais, imagens, alergias, medicamentos, vacinação e encaminhamentos estão entre os fluxos de maior impacto.
- Padrões abertos e terminologias consistentes. A integração sustentável depende de padrões reconhecidos, APIs bem documentadas e conceitos clínicos compreendidos da mesma forma por todos os sistemas envolvidos.
- Evolução dos sistemas legados. Nem todo prestador poderá substituir seu prontuário de imediato. Em muitos casos, o caminho mais viável será uma arquitetura gradual, apoiada por camadas de integração, qualidade cadastral, identificadores confiáveis e testes de consistência.
- Conexão com plataformas nacionais e redes de referência. A integração com a RNDS faz parte da estratégia assistencial e do relacionamento com o ecossistema de saúde, sempre em conformidade com os requisitos técnicos e legais vigentes.
- Proteção dos dados desde a origem. Controle de acesso por função, autenticação forte, criptografia, registros de auditoria, gestão de consentimentos quando aplicável, resposta a incidentes e treinamento contínuo fazem parte da construção de confiança e da sustentabilidade do modelo.
- Avaliação de resultados. Indicadores como proporção de documentos estruturados, tempo de troca de informações, redução de exames duplicados, completude dos dados e disponibilidade no ponto de cuidado ajudam a acompanhar a evolução e orientar melhorias.
Um dos investimentos mais importantes, contudo, é cultural. O registro estruturado e completo não beneficia apenas quem produz a informação, mas também os profissionais que darão continuidade ao cuidado e, sobretudo, o paciente. A usabilidade dos prontuários também tem papel decisivo: quanto mais simples e integrada à rotina assistencial, menor o risco de a interoperabilidade aumentar a carga burocrática ou estimular registros de baixa qualidade.
A contribuição das entidades
A construção de uma agenda nacional de interoperabilidade também passa pela participação de conselhos profissionais, sociedades científicas, associações empresariais de saúde e instituições de ensino. Em diálogo com o Estado e com os demais atores do sistema, essas entidades podem contribuir para que a formulação de normas encontre um ponto de equilíbrio entre inovação, segurança, autonomia profissional e direitos do paciente.
Além disso, sua experiência pode apoiar a produção de referências técnicas e éticas sobre a qualidade dos registros clínicos, as informações essenciais para a continuidade do cuidado e as formas adequadas de protegê-las. Ao mesmo tempo, a formação de médicos, enfermeiros, gestores, profissionais de tecnologia e administradores ganha importância diante de temas como governança de dados, segurança, LGPD, interoperabilidade e uso responsável da inteligência artificial.
Certificações, acreditações, auditorias, indicadores e boas práticas oferecem outros caminhos para estimular a qualidade e apoiar a evolução de instituições e fornecedores. Mais do que instrumentos de conformidade, essas iniciativas podem ajudar a consolidar relações de confiança em um ambiente no qual diferentes sistemas e organizações precisam trocar informações de forma segura.
Há ainda um papel relevante na aproximação entre os setores. Entidades como a Saúde Digital Brasil, os conselhos profissionais e outras associações representativas podem favorecer fóruns permanentes de diálogo, consultas públicas, testes de padrões e compartilhamento de experiências. A participação do setor privado se torna especialmente valiosa quando amplia a colaboração, incentiva padrões abertos e soluções interoperáveis e considera as condições de acesso das instituições de menor porte.
Uma construção compartilhada
O avanço dessa agenda tende a ganhar consistência quando infraestrutura, governança, regulação e formação evoluem de forma integrada. Nesse processo, a articulação do Ministério da Saúde, a incorporação dessas práticas pelos prestadores e a contribuição técnica e institucional das entidades representativas dos setores envolvidos podem criar as condições para uma interoperabilidade mais equilibrada, segura e sustentável.
O sucesso, no fim, não estará apenas no número de sistemas conectados, mas na capacidade de transformar essa conexão em continuidade do cuidado. Isso significa permitir que o profissional encontre a informação certa no momento certo, que o gestor planeje com dados confiáveis e que o cidadão não precise recomeçar sua história a cada atendimento. A interoperabilidade se afirma, assim, como uma das infraestruturas que sustentam o direito à saúde.
Por Carlos Pedrotti, Conselheiro da Saúde Digital Brasil







